Onda de recuperações judiciais atinge grandes redes de varejo e alimentação em agosto

Blog Economia Política

O mês de agosto de 2026 ficará marcado como um dos períodos mais movimentados para o setor de reestruturação empresarial no Brasil. Em poucos dias, companhias de peso em segmentos distintos — do varejo de eletrodomésticos e móveis à alimentação fora do lar — recorreram à Justiça para pedir recuperação judicial, evidenciando o quanto os juros elevados e o crédito mais caro seguem pressionando o caixa das empresas brasileiras.

O caso que ganhou mais repercussão nos últimos dias foi o do Grupo Gennius, controlador das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill. O grupo protocolou o pedido de recuperação judicial no fim de semana e teve o processamento autorizado pela Justiça de São Paulo já na segunda-feira seguinte, com o juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da capital paulista, à frente do caso. A dívida declarada soma cerca de R$ 265,2 milhões, distribuída entre 176 requerentes, incluindo empresas do grupo e produtores rurais ligados à cadeia de fornecimento. A consultoria KPMG foi nomeada administradora judicial do processo.

Segundo apurações do mercado, o Bradesco é o maior credor da rede, concentrando por volta de 40% dos créditos envolvidos, seguido por instituições como Daycoval, Original e Inter. O Grupo Gennius terá agora 60 dias para apresentar um plano de reestruturação detalhado, prazo dentro do qual precisará convencer os credores sobre a viabilidade do negócio. Antes de chegar à recuperação judicial, a empresa já havia buscado uma medida cautelar contra credores em julho, numa tentativa de ganhar tempo para negociar sem sucesso. Em nota, a assessoria da companhia afirmou que o objetivo do pedido é preservar a continuidade do negócio no longo prazo e que as unidades seguem funcionando normalmente, sem impacto no atendimento aos clientes. A empresa também atribuiu parte da crise ao avanço das plataformas de delivery sobre as lojas físicas, um movimento acelerado desde a pandemia, somado à escalada dos juros nos últimos anos.

O caso levantou ainda uma discussão paralela sobre os efeitos da recuperação judicial de uma franqueadora sobre a rede de franqueados. Especialistas ouvidos pela imprensa especializada apontam que, mesmo sem fazer parte formal do processo judicial, quem investiu numa unidade franqueada pode sentir os efeitos indiretos da crise, especialmente se a franqueadora tiver dificuldades para manter fornecimento, logística, tecnologia e suporte às lojas — pontos considerados essenciais para o funcionamento do sistema de franquias.

Mas o Habib’s não esteve sozinho nesse movimento. Dias antes, duas gigantes do varejo de móveis e eletrodomésticos também recorreram ao mesmo instrumento. O Grupo Casas Bahia apresentou pedido de recuperação judicial que abrange a companhia e outras nove empresas do grupo, com passivo declarado de aproximadamente R$ 17,3 bilhões. O anúncio veio junto à divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026, período em que a empresa registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões. Antes do pedido, o grupo já havia promovido uma nova rodada de cortes, com o desligamento de cerca de três mil funcionários e o fechamento de quase 300 lojas. Mesmo assim, a companhia afirma manter mais de 20 mil colaboradores e garante que lojas físicas, e-commerce e demais canais de venda continuarão operando normalmente durante o processo.

No mesmo período, a rede de móveis Marabraz também deu entrada com pedido de recuperação judicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, reunindo cinco empresas do grupo e uma dívida de cerca de R$ 140 milhões a ser renegociada. A companhia atribuiu o agravamento da crise a dificuldades do varejo em geral, à restrição de crédito e a disputas societárias e familiares que, segundo o grupo, comprometeram uma estrutura que historicamente sustentava suas operações de financiamento ao consumidor.

Analistas do setor observam que, apesar das particularidades de cada caso, há um fio condutor comum: o custo do dinheiro. Segundo especialistas consultados pela imprensa econômica, o problema não estaria necessariamente na queda das vendas, mas no encarecimento do capital de giro e na maior seletividade de bancos e fornecedores na hora de conceder crédito a varejistas. Esse cenário já havia atingido, em julho, o Grupo Toky — dono da Tok&Stok e da Mobly —, que segue em recuperação judicial com uma dívida superior a R$ 1,1 bilhão, reforçando a percepção de que o varejo de móveis e eletrodomésticos está entre os setores mais expostos à atual fase de juros altos e crédito restrito no país.

Diante desse cenário, cresce também a atenção de fornecedores, franqueados e consumidores sobre a saúde financeira de grandes marcas do dia a dia. Embora todas as empresas citadas garantam que suas operações seguem funcionando normalmente durante os processos, o número de pedidos concentrados em um único mês reacende o debate sobre os efeitos dos juros elevados na saúde financeira de companhias que empregam dezenas de milhares de trabalhadores em todo o país.

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